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Caravana da Pesca

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01/12/2010
por Ivo Mendes   
OS LAMBARIS DO RIO TAQUARI, OU... Imprimir E-mail

Pescador no cemitério

O homem, de um modo geral, sempre está com um pé atrás quando o assunto é o sobrenatural. E, se o tema então é sobre o capeta, o arrepio corre solto pelo seu espinhaço. É da natureza humana temer o desconhecido.

Pois Bentinho, o nosso herói da vez, tinha medo de tudo o que não pudesse compreender, como as figuras tétricas das histórias que os seus irmãos mais velhos contavam sobre assombrações só para vê-lo apavorado; ou das ameaças do padre da vila, de que o demo vinha tentar quem não fosse à missa nos domingos.

Apenas o padrinho Justino, homem destemido e de conversa séria e honesta, lhe prestava consideração dizendo para ter sossego que o diabo não existia. Era invenção hipócrita das religiões para dominação psíquica dos seus fiéis - no que, caro leitor, concordamos em número e grau.

O nosso personagem, apesar de temer as possíveis aparições, tinha uma queda singular pelos lambaris do rio Taquari e, confiando nas afirmações positivas do padrinho e na companhia do seu fiel vira-latas, o Gigante, não perdia um domingo na faina de fisgar os cobiçados rabos-vermelhos.

Contudo, a vida ia em frente, o tempo não para: o padre, o padrinho e o seu fiel Gigante mudaram-se para o andar de cima. E, com o passar dos anos que fez crescer os pelos em seu rosto e apagar da memória as ameaças do "coisa ruim", além do amor pelas pescarias, deu de beber pinga e faltar de vez à missa.

Mas bebia pouco, e isso por um motivo deveras relevante: era fraco, qualquer gole a mais deixava bambas as pernas - tinha receio de não chegar dia claro em casa. E um receio muito bem fundamentado, pois, entre a vila e o seu rancho, se interpunha o cemitério. Vai que a noite chegasse no meio do caminho.

Em todas as épocas, havemos de esbarrar, com certa freqüência, com os inconvenientes. Aqueles tipos que não fazem outra coisa a não ser perturbar o nosso sossego: estão sempre à espreita de uma oportunidade para destilar as suas maldades.

Num domingo, após lambarizar a manhã inteira, foi até a vila levar um leitão encomendado pelo "seu" Alípio, dono do armazém da localidade. E ficou de conversa com os conhecidos, jogou truco e bebeu pinga, um pouco até a mais que o de costume.

Quando a tarde já ia a meio caminho em direção à noite, a prudência lhe falou no ouvido, pela voz de um amigo, que era hora de ir embora.

Não deu meia dúzia de passos e uma zoeira na cabeça e uma moleza nas pernas lhe fez aceitar o convite de agradável sombra de uma jabuticabeira à beira da estrada: dormiu como se estivesse na própria cama.

Da porta do armazém, dois compadres que não perdiam uma chance de infernizar uma possível vítima, confabularam a safadeza.

- Compadre, fique de olho, quando o Bentinho acordar, já de noitinha, vamos sair na frente e esperá-lo no cemitério, Hoje vamos rir um bocado.

E ficaram de prontidão, sem notar que também eram observados por um amigo do adormecido; o Casemiro, o não menos destemido filho do falecido padrinho Justino.

Bentinho acordou sobressaltado, a escuridão já deslizava pelo cimo da serra, não tardava a envolver tudo. O medo espantou a moleza das pernas e lhe empurrou ligeiro no rumo da casa.

Quando a noite alcançou o caminho à sua frente, mal havia chegado no cemitério. Com um olho na estrada e o outro no muro do "campo santo", apressou o passo. Foi quando ouviu os gemidos:

- Ai... Ui... Ai... Ui... - que os dois compadres se esmeravam em dar um tom lúgubre, deitados em cima do muro.

Os pés do coitado criaram asas, e quando os dois safados se erguiam já quase às gargalhadas, uma voz fantasmagórica ecoou por entre os túmulos do sombrio cemitério:

- O que lhes dói, meus filhos?

Os compadres, com os cabelos em pé, riscaram a estrada em direção oposta a de Bentinho, deixando no ar, além da poeira, o cheiro característico dos que não agüentam nas calças o medo que lhes bate no peito.

Por Ivo Mendes, poeta e pescador esportivo.

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