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O rio Belém, no inÃcio do século passado, não tinha o seu leito corrigido como hoje se apresenta e nem possuÃa bocas de canos despejando poluição em suas águas. Era sinuoso como qualquer rio que faz o seu caminho de acordo com a topografia do terreno que tem pela sua frente.
O progresso é que exige essas correções segundo as suas prioridades lucrativas sem nunca se importar com o que vai acontecer no futuro - amiúde, a natureza cobra esses alinhamentos com enchentes avassaladoras.
Assim fizeram com o Iguaçu, com o Barigui, com o Tietê em São Paulo e com muitos outros rios por este Brasil afora. E, enquanto as suas antigas margens não são aterradas para o avanço da civilização, ficam, por algum tempo, pedaços de rio de águas paradas, sem forças, mas revigoradas em dias de chuvas. E os peixes, que ficaram aprisionados nestes braços aparentemente mortos, continuam crescendo e se multiplicando fazendo a alegria de muitos pescadores.
Com o tempo, e com a aquisição por particulares das áreas que os contém, alguns destes braços ficam esquecidos em meio ao mato que se fecha à sua volta.
Numa dessas áreas que escondia um pedaço curvilÃneo do Belém, há mais de cinqüenta anos, um peão roçava a capoeira dominante quando escutou o som caracterÃstico de um peixe se batendo na água.
"Mas onde?" - exclamou o caboclo, se o que ele via era só mato espesso.
Curioso, foi agitando a foice à sua frente num movimento pendular abrindo caminho na vegetação quase impenetrável. Após quase uma hora de árduo esforço, chegou surpreso à beira de um barranco que mantinha prisioneiro um pedaço do velho leito do rio.
Passada a surpresa, pois não imaginava que naquele lugar ermo pudesse haver alguma lagoa ou algo semelhante, o matagal não permitia que a vista alcançasse mais do que alguns metros, foi limpando a margem daquele estranho pedaço de água em direção do espadanar do peixe, ou de algum outro qualquer animal que parecia preso em alguma armadilha e que procurava, desesperadamente, assim parecia, libertar-se.
Por fim, alcançou a origem do barulho, mas ainda não conseguia visualizar o que era devido à intensa vegetação que crescia vigorosa por sobre a água estagnada. Todavia, constatou que, fosse o que fosse, não conseguiria tão cedo escapulir.
Deu meia-volta e partiu célere rumo a casa pedir ajuda aos filhos, o bicho parecia grande.
Voltou com os rapazes e alguns vizinhos arrastados mais pela curiosidade do que pela intenção da ajuda voluntária.
Depois de mais algum tempo em limpar o emaranhado de folhas e caules, viram estupefatos um gigantesco peixe encalhado na lama coberta por rasa lâmina de água.
Mataram a pauladas. Em seguida, passaram uma corda por uma das guelras e a boca da enorme carpa - era uma carpa - e içaram-na, com dificuldade, barranco acima.
Para encurtar esta velha narrativa contada já faz um bocado de tempo, fechamos a história esclarecendo que a carpa pesou cento e trinta e sete quilos, podem acreditar, e que valeu uma festança daquelas: peixe assado e muita pinga que ninguém era de ferro.
O quê! Provas do fato? Não as temos.
Fica só mesmo o causo repetido nas mesas de algum botequim ou contado em rodas de velhos pescadores - é bem provável que, passando de um para outro contador, as palavras foram se modificando e as informações aumentando em busca do espetacular, com sempre se usa fazer.
Por Ivo Mendes, escritor, poeta e pescador esportivo.
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