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Caravana da Pesca

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16/08/2010
por Ivo Mendes   
UMA QUESTÃO DE BOM SENSO Imprimir E-mail

Baiacú

Não é sempre, só de vez em quando levo meus netos em alguma das minhas pescarias. Até porque, quero pescar também e, com eles, não pesco.

O tempo todo observo, cuido, ajudo, desenrolo linhas emaranhadas, substituo as rompidas, desengato peixes fisgados, tiro anzóis de dedinhos imprudentes... Enfim, não sossego um instante.

Calma, meu amigo leitor, não quero te desestimular, leve, vez ou outra, teus filhos ou netos para pescar junto. Lembre-se que o esporte é a melhor solução contra o perigo das drogas ou das más companhias. Seja companheiro, parceiro de atividades esportivas.  E mesmo que você não pesque, faça-se de professor: os frutos colhidos serão compensadores.

Ao construir este pequeno intróito, mudei a história - acontece, a imaginação viaja ao sabor da inspiração e, amiúde, o autor muda o rumo da narração, dá-lhe outra direção mais construtiva -, veio-me à lembrança uma cena observada há alguns anos.

Estava pescando no trapiche de pedras, logo após o Iate Clube de Guaratuba, quando me chamou a atenção a paciência de um pai ensinado ao filho a maravilhosa arte de pescar.

Pela maneira que aquele pai explicava, parecia ser a primeira vez que trazia o filho, que deveria ter entre sete e oito anos.

Aquela ponta de pedras já foi um ótimo pesqueiro, hoje está meio devagar, Tem dias de ótimas pescarias, outros, nem tanto.

O pai, revestido de toda a boa vontade, ensinava os mínimos detalhes e o filho demonstrava a atenção do bom aluno. Via-se ali um futuro bom pescador.

O trapiche tinha mais alguns pescadores e, de tempos em tempos, ouvia-se imprecações: "peixe maldito".

E, em seguida, o estouro do peixe batendo nas pedras em uma demonstração de raiva diante do insucesso na pescaria: jogavam baiacus que fisgavam para morrer arrebentados sob o Sol inclemente.

O pai olhava indignado aquela ação estúpida e o filho arregalava os olhos assustado com tamanha ignorância.

Foi quando fisguei também um baiacu. Os dois viraram-se para mim e aguardaram ansiosos o meu comportamento com o "maldito" peixe.

Calmamente, fiz um sinal para que se aproximassem e, falando com naturalidade, expliquei que aquele peixe não tinha nenhuma culpa em pegar o nosso anzol, ele é igual aos outros peixes, também tem fome. E, por outro lado, tem uma ótima carne, pode ser aproveitado como os outros mais nobres. Basta, para isso, saber limpá-lo.

E, de imediato, mostrei como fazer, tendo o cuidado com a pequena bolinha azul escura que contém o fel, um poderosíssimo tóxico capaz de matar uma família inteira.

Terminado o serviço, apresentei-lhes a carne do baiacu, limpa de qualquer vestígio do terrível veneno, e guardei-a no pequeno isopor com outros que já havia pescado.

Concluindo o ensinamento, disse-lhes que, se não quisessem aproveitar a sua saborosa carne, poderiam soltá-lo de volta à vida.

Um silêncio pairou por sobre o trapiche. Uns poucos pescadores abaixaram as cabeças envergonhados de suas atitudes antiecológicas; outros me olharam carrancudos condenando o meu atrevimento.

Continuei pescando tranquilamente e, após mais alguns baiacus, fui embora ciente do bom exemplo dado - por precaução, fiquei um bom tempo sem voltar ao velho trapiche de pedras.

Por Ivo Mendes, poeta e pescador esportivo.

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