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Caravana da Pesca

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17/05/2010
por Ivo Mendes   
A SEXTA-FEIRA DA MINHA MORTE Imprimir E-mail
Morte _Sexta-Feira

Morri numa sexta-feira como sempre quis morrer. As sextas-feiras foram a vida toda do meu agrado. Talvez por ser véspera de sábado, início de diversão, folga, dia nacional da loira gelada. É isso aí. Essas coisas todas que dizem para justificar a chegada do fim de semana.

No sábado e domingo não! Deus me livre! São dias de folguedos, de ir ao futebol, à praia, pescar. Definitivamente, não! Recuso-me morrer nestes dias. São a antítese da tristeza. A sexta-feira é diferente, é o começo e o fim. A expectativa de alegria e, extraoficialmente, o término da semana. Termina uma etapa e começa outra.

Pois então, estava ali, esticado, as mãos como as mãos de todos os defuntos, sobrepostas. As pessoas, de cabeças baixas, falando aos sussurros e olhando de esguelha para ver quem chega e quem sai. Rostos curiosos vez em quando se curvam para ver a morte.

Engraçado, eu sabia que estava morto, sentia-me duro, gelado, e estava vendo e escutando tudo. Assustei-me. Fiz força para levantar, consegui. Mas ninguém se espantou. Parece que nem notaram. Viro-me, e lá estava eu: continuava deitado. Desespero-me e volto ligeiro ao corpo. O coração batia como um tambor. Batia! Eu sentia! Via! Ouvia! Estava morto e não estava.

Alguém chega e vem cumprimentar a viúva. Interessante, só agora é que percebo: Quem é que fica viúvo? Quem fica ou quem parte?

- Meus sentimentos, minha senhora... Que Deus o tenha; descansou, o coitado...

Que descansou o quê! Estou aqui no maior sufoco, isto é lá descansar. E quem disse que eu estava cansado? Coitado é... Bem, deixa pra lá, ele não vai me escutar mesmo. Ninguém me escuta. Também, eu não falo, só penso. Dei-me conta que converso comigo mesmo.

Meus filhos, cabisbaixos - sinto a tristeza deles. Minhas noras, pesarosas. Meus netos, a um canto, olham tudo e a todos sem compreenderem o que está acontecendo. Vão sentir a minha falta, depois acostumam - todos acostumam.

Olha quem chega! A vizinha do fim da rua, a das pernas grossas, torneadas, perfeitas. Nunca fomos além do olhar, do bom dia, boa tarde. Ela, muito recatada; eu, muito tímido, sem coragem. Sempre houve um respeito mútuo - gostei, ela veio me ver; um último olhar de adeus.

Abraça minha esposa. Não diz nada. O que se pode dizer numa hora dessas? Um abraço sincero vale mais que o alfabeto inteiro. É a solidariedade em forma de afeto, de carinho, de abraço.

Muitos vinham só por curiosidade. Somos curiosos diante da morte, e, principalmente, quando acontece com algum conhecido que sempre vimos vivo. É, sem dúvida, uma surpresa e, lamentavelmente, a certeza que um dia seremos nos ali espichados - como agora, no meu caso.

Chega mais gente. É o compadre Alípio, grande companheiro de pescarias. Constato, com uma certa tristeza, que não vou mais pescar. Nunca mais o barranco do rio; a fisgada do peixe; as noites em volta da fogueira contando e ouvindo historias de peixes; o som da noite, o cricri do grilo embalando o sono... Nunca mais.

Comecei a notar que a grande maioria das pessoas estava ali apenas para mostrar obrigação. Prestar satisfação. Havia pouca espontaneidade. Ficava feio não ir. Permaneciam um tempo, assinavam a lista de presença e iam embora. Eu nunca assinei lista. Quando ia, ia para dar uma força, para fazer companhia a quem se sentia perdido, abandonado, angustiado pela partida da pessoa amada.

Poucas pessoas rezam enquanto permanecem ali. A maioria se trama em conversas. São parentes que só se encontram em velórios de parentes que se foram, ou amigos que discorrem os mesmos assuntos do bar, da esquina, da vida.

Para quase todos, morrer é o fim. Não há mais nada, só carne dura e gélida. Quanto se enganam. Pois não sou a prova! Estou aqui, preso à minha morte! Se todos orassem seria uma ajuda. Dariam-me coragem para sair, para procurar o meu lugar: o lugar para onde vão todos os que morrem.

O tempo passa. A noite se encurta, já é de madrugada. Os poucos que ficaram cochilam sentados; eu cochilo deitado.

Amanhece. Pessoas começam a chegar. Os que não vieram à noite vêm de manhã. É chegada a hora. O padre reza a missa de corpo presente. Mecânica. Sem sentido e sem esperança. Lê alguns versículos e encerra encomenda. Gente se agita; o desespero comove. O homem da funerária vem com a tampa para fechar-me para sempre. Horrorizo-me. Esbugalho os olhos que estão fechados. Não sei como, mais esbugalho, ou, pelo menos, sinto esbugalhar. Rostos se esticam para uma última olhada. Escuto o ruído dos parafusos lacrando o esquife, fica tudo escuro. Terrivelmente escuro. Será isto a eternidade da morte? A escuridão infinita. Não tem lógica. Não é.

Uma onda de calor me atinge, me aquece. Mexo-me, e eis o milagre: estou do lado de fora. Ah! Ar puro, gostoso, encho os pulmões. Eu sinto o nariz puxando ar. Como é que pode?

O pessoal vai andando, empurrando o carrinho que leva os meus restos para a última morada. Caminham como numa procissão: quietos, tristes - nesta hora a tristeza é inerente a todos.

Algumas pessoas rezam, eu as ouço. Vejo que o calor que me libertou vem delas. Elas já não andam, voltam-se e me olham sorrindo, uma delas se aproxima. É uma senhora de notável beleza e simpatia.

- Vamos embora meu irmão. Deus nos espera.


Ivo  Mendes

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