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Em épocas passadas, com o Paraná coberto por extensos pinheirais, meu pai costumava pescar no rio Tibagi. Eu tinha dez anos quando tive a feliz oportunidade de participar, pela primeira vez, numa dessas pescarias.
Embora o peso dos meus quase noventa anos me turve a memória, parece que vejo a estrada de chão pela qual os fordinhos "T" iam pipocando. Sinto ainda a emoção daquela aventura ao descortinar as recordações, era o ano de 1930 e morávamos em Ponta Grossa.
O Sol mal começava a pintar o horizonte de tons amarelo-ouro e os carros já se punham na estradinha que ia a Castro. Em Castro, após um reforçado almoço, seguimos em direção a Tibagi, uma pequena vila e nossa última parada antes de chegarmos ao pesqueiro, bem no ponto em que o Iapó engrossa as águas do Tibagi - um verdadeiro sertão naquele tempo.
Chegamos quase ao escurecer e paramos no armazém do seu José, para uma refeição rápida e dar um esticão nas pernas.
Meu pai, sempre muito alegre, foi logo cumprimentando as pessoas e puxando conversa para espantar qualquer acanhamento.
-   Boa tarde! Como vai seu José? Quanto tempo...
-   Ora! Vejam só quem chega! Tudo bem! - respondia o comerciante com um ar de simpática satisfação.
Quase ouço aquelas vozes ao lembrar aqueles momentos de felicidade. Hoje, quando a idade nos tolhe os movimentos e não podemos mais nem nos equilibrar em nossas próprias pernas, vivemos de recordações.
A conversa estendia-se em amenidades, enquanto as canecas de café, acompanhadas pelo pão e salame caseiros, iam sendo bebidas prazerosamente.
-   E os peixes, seu José? - era a pergunta principal.
-   Pois olhe! Tem tanto que nem precisa pôr isca no anzol - dizia todo satisfeito o dono do armazém.
Depois de muito falatório, escutei assustado uma recomendação do seu José.
-   Vocês tenham cuidado! Tem sumido uns bois que costumam pastar na beira do rio. Desconfia-se de cobra grande... sucuri! Há quem jure já ter visto - disse com um tom de verdadeira preocupação.
A comitiva toda riu fazendo pouco caso do aviso - menos eu, é claro, envolto que estava num clima de expectativa e espanto.
Após as reafirmações de valentia e coragem de verdadeiros titãs, e com promessas de muitos peixes, despedimo-nos e saÃmos em direção à s margens do rio, ansiosos por viver uma semana inteira de folgado lazer.
Chegando ao local escolhido, montamos rapidamente o acampamento sob a luz mortiça dos velhos lampiões de querosene. Com as barracas prontas, o cansaço da viagem fez com que ajeitássemos as tralhas de qualquer maneira, encostando-as no que parecia um grosso tronco de pinheiro caÃdo de comprido num dos lados da clareira que viria a ser o nosso lar nos próximos dias.
Logo todos dormiam vencidos pela cansativa viagem. A ressonância dos adormecidos fazia coro ao sussurrar noturno da mata ao derredor. Até o Tigre, nosso cão que deveria se postar como sentinela e que desde a mais tenra idade participava dessas pescarias, acompanhava a sinfonia dos roncos acomodado na entrada da nossa barraca.
A madrugada não tardou e os primeiros raios de sol entrometeram-se pelas frestas da lona displicentemente amarrada.
Fui o primeiro a levantar, apressado em começar a pescar. Mal dei alguns passos saindo da barraca e parei estático soltando um brado de espanto.
-Â Â Â O tronco de pinheiro sumiu!
Meu pai e seus companheiro, confusos e assustado, saÃram espirrados das barracas sem compreenderem como um tronco daquele tamanho - deveria ter mais de doze metros de comprimento e seu diâmetro passava da minha cintura - pudera sumir assim, sem mais nem menos.
A tralha seguia espalhada pela trilha deixada pelo tronco que parecia ter saÃdo coleando como uma cobra: foi o que alguém disse.
A palavra cobra resultou num susto só. Corremos para verificar que o seu destino foi o rio, como o rastro gigantesco indicava. Só então nos demos conta que o Tigre havia sumido.
Tudo foi amontoado nos bagageiros num piscar de olhos. Da pescaria, o que eu vi foi a poeira da estrada, muito mais intensa do que na vinda.
A aventura só não foi mais triste por um detalhe que nos deixou perplexos, e que, no fim, nos proporcionou a descontração que se fazia necessária.
Quando estávamos quase chegando a Castro, encontramos o Tigre, que imaginávamos no bucho da cobra, com dois palmos de lÃngua para fora e os olhos ainda arregalados de pavor.
A minha primeira pescaria acabou em gargalhas sem pegarmos um único peixe. Ao rio Tibagi, nunca mais voltamos.
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Por Ivo Mendes, pescador, poeta e escritor.
Em épocas passadas, com o Paraná coberto por extensos pinheirais, meu pai costumava pescar no rio Tibagi. Eu tinha dez anos quando tive a feliz oportunidade de participar, pela primeira vez, numa dessas pescarias.
Embora o peso dos meus quase noventa anos me turve a memória, parece que vejo a estrada de chão pela qual os fordinhos "T" iam pipocando. Sinto ainda a emoção daquela aventura ao descortinar as recordações, era o ano de 1930 e morávamos em Ponta Grossa.
O Sol mal começava a pintar o horizonte de tons amarelo-ouro e os carros já se punham na estradinha que ia a Castro. Em Castro, após um reforçado almoço, seguimos em direção a Tibagi, uma pequena vila e nossa última parada antes de chegarmos ao pesqueiro, bem no ponto em que o Iapó engrossa as águas do Tibagi - um verdadeiro sertão naquele tempo.
Chegamos quase ao escurecer e paramos no armazém do seu José, para uma refeição rápida e dar um esticão nas pernas.
Meu pai, sempre muito alegre, foi logo cumprimentando as pessoas e puxando conversa para espantar qualquer acanhamento.
-   Boa tarde! Como vai seu José? Quanto tempo...
-   Ora! Vejam só quem chega! Tudo bem! - respondia o comerciante com um ar de simpática satisfação.
Quase ouço aquelas vozes ao lembrar aqueles momentos de felicidade. Hoje, quando a idade nos tolhe os movimentos e não podemos mais nem nos equilibrar em nossas próprias pernas, vivemos de recordações.
A conversa estendia-se em amenidades, enquanto as canecas de café, acompanhadas pelo pão e salame caseiros, iam sendo bebidas prazerosamente.
-   E os peixes, seu José? - era a pergunta principal.
-   Pois olhe! Tem tanto que nem precisa pôr isca no anzol - dizia todo satisfeito o dono do armazém.
Depois de muito falatório, escutei assustado uma recomendação do seu José.
-   Vocês tenham cuidado! Tem sumido uns bois que costumam pastar na beira do rio. Desconfia-se de cobra grande... sucuri! Há quem jure já ter visto - disse com um tom de verdadeira preocupação.
A comitiva toda riu fazendo pouco caso do aviso - menos eu, é claro, envolto que estava num clima de expectativa e espanto.
Após as reafirmações de valentia e coragem de verdadeiros titãs, e com promessas de muitos peixes, despedimo-nos e saÃmos em direção à s margens do rio, ansiosos por viver uma semana inteira de folgado lazer.
Chegando ao local escolhido, montamos rapidamente o acampamento sob a luz mortiça dos velhos lampiões de querosene. Com as barracas prontas, o cansaço da viagem fez com que ajeitássemos as tralhas de qualquer maneira, encostando-as no que parecia um grosso tronco de pinheiro caÃdo de comprido num dos lados da clareira que viria a ser o nosso lar nos próximos dias.
Logo todos dormiam vencidos pela cansativa viagem. A ressonância dos adormecidos fazia coro ao sussurrar noturno da mata ao derredor. Até o Tigre, nosso cão que deveria se postar como sentinela e que desde a mais tenra idade participava dessas pescarias, acompanhava a sinfonia dos roncos acomodado na entrada da nossa barraca.
A madrugada não tardou e os primeiros raios de sol entrometeram-se pelas frestas da lona displicentemente amarrada.
Fui o primeiro a levantar, apressado em começar a pescar. Mal dei alguns passos saindo da barraca e parei estático soltando um brado de espanto.
-Â Â Â O tronco de pinheiro sumiu!
Meu pai e seus companheiro, confusos e assustado, saÃram espirrados das barracas sem compreenderem como um tronco daquele tamanho - deveria ter mais de doze metros de comprimento e seu diâmetro passava da minha cintura - pudera sumir assim, sem mais nem menos.
A tralha seguia espalhada pela trilha deixada pelo tronco que parecia ter saÃdo coleando como uma cobra: foi o que alguém disse.
A palavra cobra resultou num susto só. Corremos para verificar que o seu destino foi o rio, como o rastro gigantesco indicava. Só então nos demos conta que o Tigre havia sumido.
Tudo foi amontoado nos bagageiros num piscar de olhos. Da pescaria, o que eu vi foi a poeira da estrada, muito mais intensa do que na vinda.
A aventura só não foi mais triste por um detalhe que nos deixou perplexos, e que, no fim, nos proporcionou a descontração que se fazia necessária.
Quando estávamos quase chegando a Castro, encontramos o Tigre, que imaginávamos no bucho da cobra, com dois palmos de lÃngua para fora e os olhos ainda arregalados de pavor.
A minha primeira pescaria acabou em gargalhas sem pegarmos um único peixe. Ao rio Tibagi, nunca mais voltamos.
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Por Ivo Mendes, pescador, poeta e escritor.
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