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Caravana da Pesca

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07/05/2010
por Ivo Mendes, pescador, poeta e escritor   
A PESCARIA Imprimir E-mail
Camping com Sucuri

 

Em épocas passadas, com o Paraná coberto por extensos pinheirais, meu pai costumava pescar no rio Tibagi. Eu tinha dez anos quando tive a feliz oportunidade de participar, pela primeira vez, numa dessas pescarias.

Embora o peso dos meus quase noventa anos me turve a memória, parece que vejo a estrada de chão pela qual os fordinhos "T" iam pipocando. Sinto ainda a emoção daquela aventura ao descortinar as recordações, era o ano de 1930 e morávamos em Ponta Grossa.

O Sol mal começava a pintar o horizonte de tons amarelo-ouro e os carros já se punham na estradinha que ia a Castro. Em Castro, após um reforçado almoço, seguimos em direção a Tibagi, uma pequena vila e nossa última parada antes de chegarmos ao pesqueiro, bem no ponto em que o Iapó engrossa as águas do Tibagi - um verdadeiro sertão naquele tempo.

Chegamos quase ao escurecer e paramos no armazém do seu José, para uma refeição rápida e dar um esticão nas pernas.

Meu pai, sempre muito alegre, foi logo cumprimentando as pessoas e puxando conversa para espantar qualquer acanhamento.

-    Boa tarde! Como vai seu José? Quanto tempo...

-    Ora! Vejam só quem chega! Tudo bem! - respondia o comerciante com um ar de simpática satisfação.

Quase ouço aquelas vozes ao lembrar aqueles momentos de felicidade. Hoje, quando a idade nos tolhe os movimentos e não podemos mais nem nos equilibrar em nossas próprias pernas, vivemos de recordações.

A conversa estendia-se em amenidades, enquanto as canecas de café, acompanhadas pelo pão e salame caseiros, iam sendo bebidas prazerosamente.

-    E os peixes, seu José? - era a pergunta principal.

-    Pois olhe! Tem tanto que nem precisa pôr isca no anzol - dizia todo satisfeito o dono do armazém.

Depois de muito falatório, escutei assustado uma recomendação do seu José.

-    Vocês tenham cuidado! Tem sumido uns bois que costumam pastar na beira do rio. Desconfia-se de cobra grande... sucuri! Há quem jure já ter visto - disse com um tom de verdadeira preocupação.

A comitiva toda riu fazendo pouco caso do aviso - menos eu, é claro, envolto que estava num clima de expectativa e espanto.

Após as reafirmações de valentia e coragem de verdadeiros titãs, e com promessas de muitos peixes, despedimo-nos e saímos em direção às margens do rio, ansiosos por viver uma semana inteira de folgado lazer.

Chegando ao local escolhido, montamos rapidamente o acampamento sob a luz mortiça dos velhos lampiões de querosene. Com as barracas prontas, o cansaço da viagem fez com que ajeitássemos as tralhas de qualquer maneira, encostando-as no que parecia um grosso tronco de pinheiro caído de comprido num dos lados da clareira que viria a ser o nosso lar nos próximos dias.

Logo todos dormiam vencidos pela cansativa viagem. A ressonância dos adormecidos fazia coro ao sussurrar noturno da mata ao derredor. Até o Tigre, nosso cão que deveria se postar como sentinela e que desde a mais tenra idade participava dessas pescarias, acompanhava a sinfonia dos roncos acomodado na entrada da nossa barraca.

A madrugada não tardou e os primeiros raios de sol entrometeram-se pelas frestas da lona displicentemente amarrada.

Fui o primeiro a levantar, apressado em começar a pescar. Mal dei alguns passos saindo da barraca e parei estático soltando um brado de espanto.

-    O tronco de pinheiro sumiu!

Meu pai e seus companheiro, confusos e assustado, saíram espirrados das barracas sem compreenderem como um tronco daquele tamanho - deveria ter mais de doze metros de comprimento e seu diâmetro passava da minha cintura - pudera sumir assim, sem mais nem menos.

A tralha seguia espalhada pela trilha deixada pelo tronco que parecia ter saído coleando como uma cobra: foi o que alguém disse.

A palavra cobra resultou num susto só. Corremos para verificar que o seu destino foi o rio, como o rastro gigantesco indicava. Só então nos demos conta que o Tigre havia sumido.

Tudo foi amontoado nos bagageiros num piscar de olhos. Da pescaria, o que eu vi foi a poeira da estrada, muito mais intensa do que na vinda.

A aventura só não foi mais triste por um detalhe que nos deixou perplexos, e que, no fim, nos proporcionou a descontração que se fazia necessária.

Quando estávamos quase chegando a Castro, encontramos o Tigre, que imaginávamos no bucho da cobra, com dois palmos de língua para fora e os olhos ainda arregalados de pavor.

A minha primeira pescaria acabou em gargalhas sem pegarmos um único peixe. Ao rio Tibagi, nunca mais voltamos.

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Por Ivo Mendes, pescador, poeta e escritor.


Em épocas passadas, com o Paraná coberto por extensos pinheirais, meu pai costumava pescar no rio Tibagi. Eu tinha dez anos quando tive a feliz oportunidade de participar, pela primeira vez, numa dessas pescarias.


Embora o peso dos meus quase noventa anos me turve a memória, parece que vejo a estrada de chão pela qual os fordinhos "T" iam pipocando. Sinto ainda a emoção daquela aventura ao descortinar as recordações, era o ano de 1930 e morávamos em Ponta Grossa.

O Sol mal começava a pintar o horizonte de tons amarelo-ouro e os carros já se punham na estradinha que ia a Castro. Em Castro, após um reforçado almoço, seguimos em direção a Tibagi, uma pequena vila e nossa última parada antes de chegarmos ao pesqueiro, bem no ponto em que o Iapó engrossa as águas do Tibagi - um verdadeiro sertão naquele tempo.

Chegamos quase ao escurecer e paramos no armazém do seu José, para uma refeição rápida e dar um esticão nas pernas.

Meu pai, sempre muito alegre, foi logo cumprimentando as pessoas e puxando conversa para espantar qualquer acanhamento.

-    Boa tarde! Como vai seu José? Quanto tempo...

-    Ora! Vejam só quem chega! Tudo bem! - respondia o comerciante com um ar de simpática satisfação.

Quase ouço aquelas vozes ao lembrar aqueles momentos de felicidade. Hoje, quando a idade nos tolhe os movimentos e não podemos mais nem nos equilibrar em nossas próprias pernas, vivemos de recordações.

A conversa estendia-se em amenidades, enquanto as canecas de café, acompanhadas pelo pão e salame caseiros, iam sendo bebidas prazerosamente.

-    E os peixes, seu José? - era a pergunta principal.

-    Pois olhe! Tem tanto que nem precisa pôr isca no anzol - dizia todo satisfeito o dono do armazém.

Depois de muito falatório, escutei assustado uma recomendação do seu José.

-    Vocês tenham cuidado! Tem sumido uns bois que costumam pastar na beira do rio. Desconfia-se de cobra grande... sucuri! Há quem jure já ter visto - disse com um tom de verdadeira preocupação.

A comitiva toda riu fazendo pouco caso do aviso - menos eu, é claro, envolto que estava num clima de expectativa e espanto.

Após as reafirmações de valentia e coragem de verdadeiros titãs, e com promessas de muitos peixes, despedimo-nos e saímos em direção às margens do rio, ansiosos por viver uma semana inteira de folgado lazer.

Chegando ao local escolhido, montamos rapidamente o acampamento sob a luz mortiça dos velhos lampiões de querosene. Com as barracas prontas, o cansaço da viagem fez com que ajeitássemos as tralhas de qualquer maneira, encostando-as no que parecia um grosso tronco de pinheiro caído de comprido num dos lados da clareira que viria a ser o nosso lar nos próximos dias.

Logo todos dormiam vencidos pela cansativa viagem. A ressonância dos adormecidos fazia coro ao sussurrar noturno da mata ao derredor. Até o Tigre, nosso cão que deveria se postar como sentinela e que desde a mais tenra idade participava dessas pescarias, acompanhava a sinfonia dos roncos acomodado na entrada da nossa barraca.

A madrugada não tardou e os primeiros raios de sol entrometeram-se pelas frestas da lona displicentemente amarrada.

Fui o primeiro a levantar, apressado em começar a pescar. Mal dei alguns passos saindo da barraca e parei estático soltando um brado de espanto.

-    O tronco de pinheiro sumiu!

Meu pai e seus companheiro, confusos e assustado, saíram espirrados das barracas sem compreenderem como um tronco daquele tamanho - deveria ter mais de doze metros de comprimento e seu diâmetro passava da minha cintura - pudera sumir assim, sem mais nem menos.

A tralha seguia espalhada pela trilha deixada pelo tronco que parecia ter saído coleando como uma cobra: foi o que alguém disse.

A palavra cobra resultou num susto só. Corremos para verificar que o seu destino foi o rio, como o rastro gigantesco indicava. Só então nos demos conta que o Tigre havia sumido.

Tudo foi amontoado nos bagageiros num piscar de olhos. Da pescaria, o que eu vi foi a poeira da estrada, muito mais intensa do que na vinda.

A aventura só não foi mais triste por um detalhe que nos deixou perplexos, e que, no fim, nos proporcionou a descontração que se fazia necessária.

Quando estávamos quase chegando a Castro, encontramos o Tigre, que imaginávamos no bucho da cobra, com dois palmos de língua para fora e os olhos ainda arregalados de pavor.

A minha primeira pescaria acabou em gargalhas sem pegarmos um único peixe. Ao rio Tibagi, nunca mais voltamos.

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Por Ivo Mendes, pescador, poeta e escritor.

 

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